Filipe e João Pereira não têm adega para vender vinho. Têm adega para juntar pessoas.
28 de março, foi mais um desses dias perto de Cantanhede, na Bairrada — com amigos que vêm todos os anos, caras novas, carne no espeto desde cedo e vinho a sair diretamente das cubas. O tipo de tarde que começa com uma prova às cegas e acaba com conversas que se prolongam até a luz ir embora.
Já escrevemos sobre eles aqui no bebida.pt. A história não mudou: para os irmãos Pereira, o vinho é um hobby, uma herança, uma desculpa para se encontrarem. E funciona.
Para Filipe e João Pereira, a vinicultura nunca foi um negócio. É um hobby, uma paixão herdada, uma forma de manter vivos laços entre gerações e de criar momentos de encontro genuíno num tempo em que a comunicação se faz cada vez mais por ecrãs. Este evento confirmou, uma vez mais, tudo o que os torna especiais.
Prova às cegas: seis vinhos tintos em julgamento
O programa começou com uma prova às cegas conduzida pelo próprio Filipe Pereira.
Seis amostras de vinho tinto — entre monocastas e lotes — foram apresentadas aos convidados, que foram desafiados a identificar castas, estimar a idade e avaliar cada vinho. A participação foi entusiasta e os comentários não faltaram.
O painel de vinhos ofereceu um leque diversificado: desde tintos mais suaves e acessíveis até exemplares encorpados, com taninos marcados e grande potencial gastronómico.
Entre as castas representadas estiveram a Tinta Roriz, a Touriga Nacional e a Baga — esta última, verdadeiro símbolo da Bairrada. Os solos de argila e calcário típicos da região de Cantanhede imprimem aos vinhos uma tanicidade e uma profundidade de sabor inconfundíveis.
Houve também espaço para provar vinhos da última vindima, ainda nas cubas e prontos para engarrafar — uma experiência com um charme todo seu.
Brancos, espumante, aguardente e “Pêra do Amor”
Entre os vinhos brancos, destaque para a Maria Gomes como casta principal, acompanhada pelo Arinto e pelo Bical. Nos engarrafados, brilhou um espumante rosé fresco e frutado.
A completar a mesa, uma excelente aguardente — perfeita para beber a pequenos goles numa tarde de primavera — e a aguardente aromatizada com “Pêra do Amor”, uma verdadeira água ardente com carácter próprio, para apreciar com moderação.
À mesa: bifana, espeto e boa companhia
Nenhuma festa na Bairrada estaria completa sem comida. Havia petiscos de peixe e de carne, mas o momento alto foi, sem dúvida, a carne assada no espeto, comida ainda a fumegar, diretamente do fogo.
E claro, as bifanas grelhadas em fogo aberto, que combinaram na perfeição com os tintos da casa. Vinho, bifana e boa conversa: uma equação simples, mas difícil de superar.
O que torna este evento único
O que distingue a festa dos irmãos Pereira não é o tamanho nem a produção. É a autenticidade. Amigos, familiares, parceiros e apreciadores de vinho juntam-se à volta de vinhas velhas, de vinhos honestos e de uma mesa bem posta.
Pessoas de diferentes idades e profissões partilham impressões sobre os vinhos, discutem o mundo — os preços dos combustíveis, as guerras, os desafios do dia a dia — e lembram-se do que é o verdadeiro convívio.
Num tempo em que tudo convida ao isolamento digital, há algo de profundamente necessário nestes encontros. Ninguém vem só pelo vinho. Mas é o vinho que faz toda a gente voltar — ano após ano, à mesma adega, às mesmas cubas, às mesmas pessoas.





