Trump, Tarifas e Vinho Europeu

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Entre 2020 e 2025, o setor vinícola europeu enfrentou uma série de desafios comerciais causados por políticas de tarifas impostas pelos Estados Unidos.

No centro dessas medidas esteve o presidente Donald Trump, cuja administração usou tarifas como arma nas disputas com a União Europeia.

Vamos ver origem e os efeitos das tarifas aplicadas aos vinhos europeus.

Origens das Tarifas dos EUA sobre o Vinho Europeu

Durante o seu primeiro mandato (2017–2021), Trump usou tarifas como ferramenta central da sua política económica externa. Um dos principais episódios foi a disputa com a União Europeia no âmbito do caso Airbus-Boeing.

Em 2019, após uma decisão da OMC favorável aos EUA, a administração Trump impôs tarifas de 25% sobre vinhos europeus tranquilos (com menos de 14% vol.), atingindo países como França, Espanha e Alemanha.

As tarifas foram justificadas como compensação pelos alegados subsídios ilegais concedidos à Airbus. No entanto, o setor do vinho foi envolvido como “dano colateral”, afetando diretamente exportadores europeus e importadores norte-americanos.

Ameaças e Tarifas Reais: Trump e o Setor do Vinho

Além das tarifas aplicadas, Trump chegou a ameaçar taxas de até 200% sobre o vinho francês e europeu, em resposta à criação de impostos digitais por parte de países da UE. Numa publicação pública em 2020, Trump afirmou:

“Se esta tarifa não for removida imediatamente, os EUA imporão uma tarifa de 200% sobre todos os vinhos e champanhes da UE. Será ótimo para os produtores americanos.”

Estas ameaças aumentaram a instabilidade no mercado. Importadores nos EUA passaram a evitar grandes encomendas, temendo tarifas inesperadas à chegada dos produtos.

Suspensões Temporárias e Regressos

Em março de 2021, já sob a presidência de Joe Biden, os EUA e a UE acordaram suspender temporariamente as tarifas relacionadas com o caso Airbus/Boeing. Com isso, as tarifas sobre o vinho europeu foram levantadas durante vários anos.

No entanto, em março de 2025, a disputa reacendeu-se após ameaças de Trump, que voltou a prometer tarifas elevadas sobre produtos europeus.

Em abril de 2025, os EUA confirmaram uma nova tarifa de 20% sobre vinhos europeus, justificando-a como medida recíproca às tarifas aplicadas pela UE a produtos americanos.

Cobertura da Imprensa: EUA vs Europa

A imprensa europeia foi unânime em classificar as tarifas como “prejudiciais” e “injustas”. A associação europeia do setor vinícola (CEEV) declarou:

Em 2024, os Estados Unidos continuaram a ser o maior mercado de exportação de vinhos da UE, com 4,88 mil milhões de euros em vinhos europeus enviados para o país. As exportações para os EUA representaram 28% do valor total das exportações de vinho da UE.

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“As tarifas recíprocas anunciadas sobre os vinhos da UE prejudicarão gravemente as empresas vinícolas europeias, criarão incerteza económica e resultarão em despedimentos, adiamento de investimentos e aumentos de preços. Visar o vinho da UE só trará prejuízos para ambos os lados do Atlântico.” – afirmou Marzia Varvaglione, presidente do Comité Europeu das Empresas de Vinho (CEEV).

“O mercado de vinhos dos EUA é fundamental para a sustentabilidade económica do setor vinícola da UE. Não existe nenhum mercado alternativo que possa compensar a perda do mercado norte-americano.” – acrescentou.

Os setores vitivinícolas da UE e dos EUA mantêm uma cooperação estreita há anos e apoiam fortemente o comércio livre e justo, bem como mercados abertos para o vinho. A nossa relação comercial neste setor é a maior do mundo e um dos principais impulsionadores do crescimento das exportações de vinho de ambos os blocos.

Esta colaboração ganhou forma em 2020 com a assinatura de uma declaração conjunta – Declaração de Princípios UE-EUA sobre o Comércio no Setor Vitivinícola –, que destaca a importância do comércio livre e justo na indústria vinícola.

Ignacio Sánchez Recarte, Secretário-Geral do CEEV, comentou as tarifas recíprocas dos EUA, afirmando: “A imposição de direitos recíprocos sobre o comércio transatlântico de vinho parece injustificada, considerando a diferença mínima entre as tarifas da UE e dos EUA sobre os produtos vinícolas.

Juntamente com os nossos homólogos norte-americanos, temos-nos oposto de forma consistente à imposição de tarifas sobre o vinho em todo o mundo e apelado de forma contínua à eliminação dos direitos aplicáveis nos nossos mercados.”

Em Portugal, a ANCEVE alertou para os impactos diretos no setor, destacando que os EUA são o destino de mais de 100 milhões de euros anuais de vinho português.

Media Norte-Americanos

Nos Estados Unidos, os media abordaram a questão de forma mista. Embora muitos canais tenham Os meios de comunicação social dos EUA ofereceram uma cobertura extensa e diversificada sobre estas tarifas, abordando tanto as justificativas da administração Trump quanto as potenciais consequências económicas:​

Perspetivas Políticas e Comerciais: O The New Yorker analisou a estratégia de Trump, sugerindo que as tarifas representavam uma mudança significativa nas práticas comerciais dos EUA, potencialmente levando a consequências económicas graves, incluindo preços mais altos para os consumidores e uma possível recessão global .​

Impacto Económico Interno: Analistas destacaram preocupações sobre o potencial aumento da inflação e a possibilidade de uma guerra comercial global. A Investor’s Business Daily relatou que estas tarifas poderiam elevar a taxa efetiva de importação dos EUA de 2,3% para 18%, com previsões de crescimento económico mais lento e aumento do desemprego.

Setor Vinícola e de Bebidas Espirituosas: Especificamente em relação ao vinho europeu, a Associated Press noticiou que a ameaça de uma tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes europeus, em retaliação a possíveis tarifas da UE sobre o whisky americano, gerou alarme entre importadores e consumidores nos EUA. Especialistas alertaram que tais tarifas poderiam resultar em aumentos significativos de preços para os consumidores e afetar negativamente os negócios de importação .​

Impacto Económico das Tarifas sobre o Vinho

As tarifas impostas pelos EUA ao vinho europeu entre 2020 e 2025 causaram:

  • Queda nas exportações: As vendas de vinho francês para os EUA caíram até 20% após o anúncio das tarifas.
  • Aumento dos preços nos EUA: Uma garrafa de vinho europeu pode passar de $15 para $25 ou mais com a nova taxa.
  • Redução de investimentos: Vinícolas europeias congelaram planos de expansão no mercado norte-americano.
  • Prejuízo para o consumidor: Menor variedade nas lojas e restaurantes nos EUA, com aumento generalizado de preços.
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A guerra tarifária desencadeada por Trump deixou marcas profundas no setor do vinho europeu. Por muito que se invoque o argumento do equilíbrio comercial, a verdade é que estas tarifas são faca de dois gumes: atingem os produtores da Europa, mas também não poupam os importadores e consumidores do outro lado do Atlântico.

Com a nova tarifa de 20% em vigor desde abril de 2025, o comércio de vinho entre a UE e os EUA voltou a andar aos solavancos.

E como se diz por cá – Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão — neste caso, pequenos produtores, distribuidores e consumidores.

O que aí vem depende agora da dança política em Washington e da habilidade negocial em Bruxelas. Enquanto dois não fazem as pazes, o prejuízo vai-se acumulando.

E há algo que já ninguém contesta: numa guerra de tarifas sobre vinho, ninguém ganha — todos perdem.