A mais de 1.500 quilómetros de Lisboa, no meio do Oceano Atlântico, há vinhas plantadas diretamente em fendas de lava negra. Não têm solo à volta — só pedra vulcânica, empilhada à mão em pequenos currais que protegem cada videira do vento e do salitre do mar. É assim que nasce o vinho dos Açores, um dos mais extremos e menos conhecidos de Portugal.
História do Vinho nos Açores: da Corte dos Czares ao Quase Desaparecimento
A vinha chegou ao arquipélago pouco depois do seu povoamento, por volta de 1427.
Foram os frades franciscanos quem trouxe a casta Verdelho, ao perceber que o clima açoriano lembrava o da Sicília. A planta adaptou-se depressa às ilhas do Pico, da Terceira e da Graciosa.
Nos séculos XVII e XVIII, o vinho açoriano tornou-se mercadoria de prestígio internacional. Era exportado para quase todo o norte da Europa e, sobretudo, para a Rússia.
Chegou a ser servido nas cortes dos czares e no Vaticano. Em 1917, depois da revolução bolchevique, os revolucionários encontraram nas caves imperiais de São Petersburgo garrafas de Verdelho do Pico — prova física de um comércio que já durava séculos.
O século XIX trouxe a ruína. Oídio, míldio e filoxera dizimaram as vinhas, uma praga atrás da outra. Muitos produtores substituíram as castas europeias por híbridos americanos resistentes, dando origem ao chamado “vinho de cheiro” — ainda hoje servido, de forma simbólica, nas festas populares do Divino Espírito Santo, em várias ilhas.
A recuperação séria das castas tradicionais só começou a sério em meados da década de 1990, com a demarcação oficial das três zonas vitícolas e a criação da Comissão Vitivinícola Regional dos Açores.
Clima e Solo dos Açores: Vinhas em Muros de Lava
O clima é atlântico, húmido, com chuva frequente e temperaturas amenas ao longo do ano — nada parecido com o calor seco do sul de Portugal. O solo é vulcânico, jovem, pouco espesso, feito de basalto e outras rochas de origem magmática.
É esse contexto hostil que explica os currais: pequenos recintos de pedra solta, com áreas entre 9 e 12 metros quadrados, que abrigam entre duas e seis videiras cada um.
Os muros bloqueiam o vento e a água salgada, mas deixam entrar o sol. Durante o dia, a pedra vulcânica absorve calor. À noite, liberta-o lentamente, criando um microclima que ajuda a uva a amadurecer num lugar onde, teoricamente, isso não deveria ser possível.
Na Ilha do Pico, essa paisagem construída ao longo de séculos ocupa 987 hectares, protegidos por uma zona-tampão de quase 1.924 hectares. Desde 2004, está classificada pela UNESCO como Património Mundial.
É um reconhecimento raro. Só o Douro partilha esse estatuto entre as paisagens vinhateiras portuguesas. Os dois já foram, inclusive, estudados lado a lado em workshops académicos conjuntos.
Para conhecer a outra metade dessa comparação, vale a pena ler o nosso artigo sobre a região do Douro.
As Três Denominações de Origem dos Açores
Pico é a mais intensa das três: vinhos licorosos brancos, densos, com mineralidade e sal quase tangíveis, cultivados nos terrenos mais pedregosos do arquipélago.
Biscoitos, na Ilha Terceira, produz um licoroso branco igualmente robusto, também assente em vinhas protegidas por currais de pedra negra — uma paisagem irmã da do Pico, em escala menor.
Graciosa foge um pouco ao padrão: relevo mais suave, solos mais férteis, vinhos brancos mais leves e florais, menos dependentes da fortificação.
Área de Vinha e Produtores em Números dos Açores
A área vitícola açoriana é uma das mais pequenas do país — não chega a uma fração do que se planta no Alentejo ou no Douro.
Ainda assim, segundo dados provisórios do Instituto da Vinha e do Vinho, os Açores foram, na campanha 2025/2026, uma das únicas duas regiões vitivinícolas portuguesas a registar crescimento em volume de produção, num ano em que quase todo o país produziu menos.
No período de 2021 a 2026, os Açores tiveram também um dos maiores crescimentos médios anuais entre as 14 regiões do país.
Um dos protagonistas dessa recuperação é a Azores Wine Company, fundada em 2002, que já recuperou cerca de 100 hectares de vinha abandonada na Ilha do Pico — tornando-se, sozinha, a maior produtora privada do arquipélago.
Tipos de Vinho dos Açores: Licorosos Intensos e Brancos Minerais
Os vinhos licorosos de Pico e Biscoitos são feitos sobretudo de Verdelho, Arinto dos Açores e Terrantez do Pico, com teores alcoólicos que ultrapassam os 18% de forma natural, sem necessidade de grande fortificação adicional. São vinhos densos, salinos, com uma acidez que os mantém vivos apesar da concentração.
Ao lado deles, a região produz também vinhos tranquilos sob a Indicação Geográfica Açores — brancos sobretudo, de perfil mineral e salino, que nos últimos anos têm chamado a atenção de críticos internacionais.
Em provas às cegas recentes, vinhos açorianos já pontuaram acima de 90 valores ao lado de referências de outras regiões do país, prova de que a qualidade acompanhou finalmente a fama antiga da região.
Festas do Vinho nos Açores
O calendário de eventos vínicos açoriano ainda é pequeno, mas cresce. A Expo Atlantic Terroir, na Ilha Terceira, é hoje a montra mais relevante da região, reunindo produtores locais num formato que começa a aproximar os Açores do circuito de eventos vínicos do continente.
Tradições e Curiosidades do Vinho nos Açores
A casta Terrantez do Pico chegou perto da extinção nos anos 1990. Restavam tão poucas plantas que a sua sobrevivência dependeu do trabalho direto de produtores locais, decididos a não deixar desaparecer uma casta que já fazia parte da paisagem da ilha havia séculos. Hoje é considerada uma das grandes riquezas genéticas do arquipélago.
A história do vinho enviado à corte russa também ganhou vida própria. Nos anos 1960, um produtor do Pico decidiu batizar o seu vinho de “Czar”, em homenagem direta às garrafas encontradas nas caves imperiais depois da revolução de 1917.
Em 2023, mais de sessenta anos depois, esse mesmo vinho foi eleito Vinho do Ano pela Revista de Vinhos — uma lenda do século XX transformada em prémio do século XXI, com o nome do czar ainda no rótulo.

