O Tejo, antigo Ribatejo, é cortado ao meio pelo rio que lhe dá o nome. De um lado e do outro da água, a paisagem muda pouco. O vinho, esse, muda de forma decisiva.
Aqui, o vinho branco domina. Na maioria das regiões portuguesas, o tinto lidera sem grande disputa. No Tejo, não.
História do Vinho do Tejo: de Fenícios a Trinta Mil Pipas para Inglaterra
A vinha por aqui é antiga. Há vestígios fenícios e romanos que o comprovam. Alvarás dos reis da primeira dinastia já documentam a sua existência, logo após a Reconquista. Há um número que impressiona.
Em meados do século XIII, a região já exportava 30 mil pipas de vinho para Inglaterra. Foi um dos primeiros grandes negócios de exportação vínica do país.
Isso aconteceu muito antes de o Vinho do Porto se tornar sinónimo internacional de vinho português.
O nome mudou várias vezes ao longo do século XX. A Comissão Vitivinícola Regional do Ribatejo nasceu em 1997. Em 2008, tornou-se a Comissão Vitivinícola Regional do Tejo.
A mudança de “Ribatejo” para “Tejo” foi pedida pelos próprios produtores, entre 2009 e 2010. O objetivo era simplificar o nome para o mercado internacional.
Clima e Solo do Tejo: Três Zonas, Três Perfis
O clima é sul-mediterrânico temperado. O rio modera as temperaturas. A chuva ronda os 500 a 600 mm por ano — nem muito, nem pouco. O verdadeiro segredo da diversidade do Tejo está na divisão em três zonas distintas.
Campo é a planície aluvial junto ao rio, com solos férteis e frescos. Bairro ocupa uma faixa intermédia, com solos argilo-calcários. Charneca fica nas terras mais altas e arenosas, mais pobres, mais quentes. Cada zona dá um vinho diferente, mesmo dentro da mesma sub-região, mesmo com a mesma casta.
As Seis Sub-Regiões do Tejo
Tomar carrega o peso simbólico mais forte da região. É onde fica o Convento de Cristo, antiga sede da Ordem dos Templários e Património Mundial da UNESCO.
Os monges que ali viveram cultivaram vinha como parte da vida monástica. Foi essa mesma lógica que ligou ordens religiosas à viticultura por toda a Europa. Isso aconteceu muito antes de existir qualquer denominação de origem. Tomar produz hoje tintos robustos e elegantes.
Santarém é considerada o coração vitivinícola da região. A sua tradição vinícola é secular. Atravessa até o próprio nome antigo da região, Ribatejo.
Chamusca e Cartaxo beneficiam da proximidade ao rio. Os vinhos são frescos. Cartaxo, em particular, é um dos centros vitivinícolas mais importantes da região.
Almeirim combina castas tradicionais com inovação agronómica. O resultado são vinhos frutados que ganharam reputação própria.
Coruche vive uma dupla identidade rara em Portugal. É mais conhecida pelas suas florestas de sobreiro e pela produção de cortiça do que pelo vinho.
Ainda assim, contribui com tintos de carácter para a diversidade da região. É um dos poucos lugares do país onde vinha e sobreiral partilham a mesma paisagem em pé de igualdade. Ali, a rolha que fecha uma garrafa pode ter nascido a poucos metros da vinha que encheu essa mesma garrafa.
Área de Vinha e Produtores em Números
Segundo a Comissão Vitivinícola Regional do Tejo, a região reúne mais de 80 associados entre adegas cooperativas, produtores e engarrafadores. A área de vinha ronda os 19 a 20 mil hectares.
Isso representa cerca de 10% da produção nacional de vinho. Aqui está o dado mais incomum: mais de metade dessa área é ocupada por castas brancas. É algo raro e original a nível nacional. A maioria das regiões portuguesas aposta sobretudo em tintas.
A internacionalização é uma prioridade antiga da região. Já em 2012, cerca de 44% da produção certificada seguia para exportação.
A própria CVR Tejo tem procurado consolidar e expandir esse valor, para mercados como Alemanha, Reino Unido, Suíça, Suécia, Polónia, Brasil, Estados Unidos e China.
Tipos de Vinho do Tejo: o Reino do Fernão Pires
A casta branca que resume a identidade do Tejo é a Fernão Pires. Já em 1900, o agrónomo Cincinnato da Costa descreveu-a na sua obra “O Portugal Vinícola”.
Disse que era uma casta que “produz muito” e cujas uvas “dão grande rendimento em mosto”. Essa descrição, mais de um século depois, continua a valer.
Os brancos de Fernão Pires são aromáticos, com notas cítricas e florais, feitos para beber jovens.
Entre as tintas, dominam Castelão, Trincadeira, Aragonez e Touriga Nacional.
Nos últimos anos, castas francesas ganharam também espaço nas vinhas mais recentes da região, ao lado das variedades tradicionais.
Tradições e Curiosidades do Vinho no Tejo
Cartaxo carregou durante décadas um apelido pouco lisonjeiro: “carrascão”. O termo era usado para um vinho difícil de beber, verdasco e de taninos amargos.
Em vez de fugir do rótulo, a região virou-o do avesso. Hoje o “carrascão do Cartaxo” é reivindicado com orgulho por quem lá vive. É símbolo de um vinho que não pede desculpa por ter carácter.
Cartaxo guarda ainda outro título que nenhum outro concelho português pode reclamar. Acolhe o Museu Rural e do Vinho do Cartaxo, criado em 1984.
É o mais antigo museu dedicado ao tema do vinho em todo o país. Não é coincidência que a cidade se autodenomine “Capital do Vinho”.
Também sedia a Associação dos Municípios Portugueses do Vinho, que reúne cerca de 60 municípios vinícolas de Portugal.
Almeirim é hoje o maior produtor de vinho de todo o distrito de Santarém. Mas já foi conhecida por outra fama, bem mais real. No século XVI, a proximidade ao Tejo e a Lisboa transformou-a no retiro de inverno preferido da corte portuguesa.
Era um destino tão procurado que ficou apelidado de “Sintra de Inverno”.
A tradição vinícola local tem uma data concreta de pioneirismo. A Quinta do Casal Branco pertence à família Cruz Sobral desde 1775.
Em 1817, a família remodelou a adega para instalar o primeiro sistema a vapor de toda a região do Ribatejo. Foi uma inovação notável para a época. Na altura, a maioria das adegas portuguesas ainda dependia inteiramente de trabalho manual.
Há uma curiosidade genética que liga o Tejo a outra região distante. A Fernão Pires, tão associada a esta região, é a mesma casta que na Bairrada recebe o nome de Maria Gomes.
São duas identidades regionais diferentes para a mesma uva. Separam-nas poucas centenas de quilómetros, mas estilos de vinho bem distintos.

