Região Vitivinícola do Alentejo

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Alentejo: a Região Onde as Uvas São Pisadas em Lagares de Mármore

O Alentejo ocupa quase um terço de Portugal continental — 27 mil quilómetros quadrados de planície, calor e vinha. É a maior região vinícola do país.

Segundo dados do Instituto da Vinha e do Vinho, entre janeiro e setembro de 2025 o Alentejo respondeu por 35,8% de todo o volume de vinho tranquilo certificado vendido em Portugal, e por 37,1% do valor — a maior quota de qualquer região do país, com folga.

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História do Alentejo: dos Romanos ao Tratado de Methuen

A vinha aqui é tão antiga que, segundo a própria Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, é provável que o Alentejo tenha protagonizado a primeira exportação de vinho português da história — para Roma, ainda durante a ocupação romana. Não há factura para provar isso.

Mas há lagares esculpidos em rocha perto de Vidigueira, há grainhas de uva encontradas junto a Beja, e há uma prática que os romanos deixaram como herança: as talhas de barro, ânforas de fermentação que a região usa desde então, quase sem interrupção.

Quem quiser conhecer essa tradição em detalhe pode ler o nosso artigo dedicado ao vinho de talha.

D. Afonso Henriques já reconhecia a importância económica da vinha alentejana no século XII. Depois vieram a Reconquista, as Descobertas — os vinhos alentejanos navegaram nos mesmos barcos que levaram Portugal ao mundo — e, em 1703, o Tratado de Methuen, que abriu o mercado inglês aos vinhos portugueses.

Alentejo castelo

A demarcação oficial da região como DOC chegou em 1988, e a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana nasceu logo a seguir, em 1989, para organizar tudo o que já vinha de dois mil anos de prática.

Clima e Solo do Alentejo: Uma Região, Vários Terroirs

Esqueça a ideia de um Alentejo uniforme. O clima geral é mediterrânico com forte influência continental: verões longos e quentes, invernos frios, chuva concentrada em poucos meses — em alguns pontos da região, menos de 60 mm por ano. Mas o que a região faz com esse clima muda completamente conforme o solo e a altitude.

A norte, perto da Serra de São Mamede, o granito e a altitude trazem frescura. No centro, em torno de Borba, Reguengos, Redondo e Évora, os solos variam entre argila, calcário e mármore, dando vinhos de perfil parecido mas nunca idêntico.

Alentejo vista

A sul, em Moura, Vidigueira e Granja-Amareleja, o calor mais severo e os solos pobres dão vinhos mais quentes e macios.

As vinhas ficam a altitudes que vão dos 50 aos 200 metros — baixas para padrões portugueses —, e é essa combinação de calor extremo e pouca altitude que explica por que o Alentejo produz, de forma consistente, vinhos maduros e generosos.

As Oito Sub-Regiões do Alentejo: o Que Realmente as Diferencia

Nem todas as sub-regiões nasceram iguais, nem têm o mesmo peso. Vale a pena conhecer os números reais por trás de cada uma.

Borba tem cerca de 3.400 hectares de vinha DOC — a segunda maior sub-região — e o solo mais estranho de todos: calcário misturado com depósitos de mármore.

Alguns produtores, como a Adega Cooperativa de Borba, fundada em 1955 e reunindo ainda hoje 270 viticultores associados, continuam a pisar parte da uva em lagares de mármore — uma técnica que sobreviveu à Revolução Industrial sem motivo aparente além de funcionar bem.

Reguengos é a maior sub-região em área DOC, com cerca de 3.200 hectares, e é onde fica a Herdade do Esporão — 1.840 hectares cujos limites geográficos não mudam desde 1267.

Poucas propriedades agrícolas em qualquer parte do mundo podem dizer o mesmo sobre as próprias fronteiras.

Redondo, com cerca de 1.900 hectares, deu ao mundo um dos vinhos mais surpreendentes da região recente: o Luminoso 2022, um “orange wine” sem sulfitos, sem filtração e sem correções, feito pela Courelas da Torre.

Em 2024, tornou-se o primeiro vinho alentejano de vinificação mínima a vencer um concurso internacional com pontuação máxima — o melhor do mundo na sua categoria.

Vidigueira, com cerca de 1.700 hectares, guarda a memória mais antiga de todas — os lagares romanos e a tradição ininterrupta da talha, com quase 2.000 anos de história documentada.

Évora, mais modesta em área (pouco mais de 700 hectares DOC), cresce em torno de vinhas históricas da Fundação Eugénio de Almeida, uma das assinaturas mais antigas da denominação, com primeira colheita registada em 1987.

Portalegre é, de longe, a mais pequena em área DOC — pouco mais de 300 hectares — mas também a mais distinta: solos graníticos, altitude, microclima moldado pela Serra de São Mamede.

Alentejo Altos quintas

Produz vinhos tensos, com acidez que desmente a fama “quente” do resto da região. É, ironicamente, a sub-região que mais foge à identidade que definiu o Alentejo lá fora.

Moura e Granja-Amareleja fecham o mapa como as menores em área DOC — pouco mais de 200 hectares cada — mas também as mais quentes: solos pobres, verões severos, vinhos densos e concentrados, quase sem concorrência dentro do país em intensidade.

Alentejo no Mercado Nacional e nas Exportações

Os números apresentados pelo IVV no Fórum Anual dos Vinhos de Portugal de 2025 mostram um Alentejo em posição dominante no mercado interno.

Entre 2016 e 2024, o mercado nacional de vinho tranquilo cresceu de 257 para 288 milhões de litros vendidos, e de 847 milhões para 1,34 mil milhões de euros em valor — um crescimento sustentado, mesmo com a quebra pontual de 2020 e 2021.

Alentejo lidera isoladamente: 35,8% do volume e 37,1% do valor de todo o vinho certificado vendido em Portugal

Dentro desse mercado, o Alentejo lidera isoladamente: 35,8% do volume e 37,1% do valor de todo o vinho certificado vendido em Portugal entre janeiro e setembro de 2025, à frente do Douro, do Minho e da Península de Setúbal.

A nível internacional, Portugal ocupa o 7.º lugar mundial em volume exportado e o 9.º em valor, com cerca de 964 milhões de euros gerados em 2024 através de 3,4 milhões de hectolitros — um aumento de 4,3% em valor face a 2023. Os principais destinos são França, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Países Baixos, que juntos representam 44% do valor total exportado.

Os Estados Unidos são hoje o maior importador mundial de vinho, e Portugal tem vindo a ganhar terreno ali: as exportações portuguesas para os EUA cresceram 12,1% em valor entre janeiro e setembro de 2025, face ao mesmo período de 2024 — o crescimento mais forte entre os principais mercados de destino.

Tipos de Vinho do Alentejo: Tintos Generosos e Brancos que Desafiam o Calor

Os tintos alentejanos são, provavelmente, os vinhos portugueses mais reconhecíveis internacionalmente depois do Vinho do Porto: frutados, macios, com álcool generoso e taninos domados pelo calor do verão.

Como escreveu Platão (c. 428–348 a.C.) nas suas Leis – O vinho foi dado aos homens como remédio contra a austeridade da velhice — uma ideia que qualquer produtor alentejano, habituado a domar o calor extremo até obter suavidade no copo, reconheceria bem.

Os brancos surpreendem por resistir ao clima que deveria, em teoria, torná-los pesados. Antão Vaz e Arinto mantêm acidez mesmo debaixo de sol intenso, resultando em vinhos redondos mas nunca cansativos.

E há ainda os vinhos de talha — ambarinos, levemente oxidativos, feitos exatamente como os romanos os faziam, sem tecnologia nenhuma entre a uva e a garrafa.

Tradições e Curiosidades do Alentejo

Vidigueira guarda talvez a coleção mais rica de factos vínicos de toda a região. Em 1888, um vinho branco da Quinta das Relíquias, apresentado pelo Conde da Ribeira Brava, conquistou a grande medalha de honra na Exposição de Berlim — a distinção máxima do certame, numa época em que Portugal ainda mal se fazia notar nos concursos internacionais.

Mais tarde, em 1519, D. Manuel I cedeu a vila a Vasco da Gama por carta régia, tornando-o Conde da Vidigueira — título que a região ainda hoje evoca no nome de gamas de vinho inspiradas na viagem à Índia.

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Em 2017, a cooperativa local foi mais longe: lançou o Vila Alva Vinhas Centenárias, um DOC Vidigueira de Talha feito a partir de vinhas centenárias, que recebeu a visita e a aprovação de uma comitiva de viticultores da Geórgia.

Foi um raro encontro entre duas tradições milenares de vinificação em ânfora que nunca se tinham cruzado antes.

Granja-Amareleja é onde as práticas ancestrais de adega sobrevivem com mais literalidade. Ainda hoje, em algumas caves, as talhas são vedadas com pez ou cera de abelhas, as uvas são desengaçadas e esmagadas à mão com o “ripanço”, o vinho é filtrado através de caules de junça, e a superfície é protegida com uma camada de azeite — um conjunto de técnicas que remonta às villae romanas do século II e que sobreviveu praticamente intacto até aos dias de hoje.

Reguengos enfrentou, em junho de 1893, a chegada da filoxera às suas vinhas — e respondeu criando localmente uma “Comissão de Vigilância Anti-Filoxérica” para tentar conter a praga.

A adega cooperativa da região, a CARMIM, nasceu em 1971 pelas mãos de 60 viticultores fundadores e reúne hoje cerca de mil associados, liderando o segmento de vinho de qualidade no mercado nacional.

Uma das adegas históricas do concelho — instalada abaixo do nível do solo para manter uma temperatura fresca e constante o ano inteiro — ainda opera dois lagares de pisa a pé lado a lado com 114 ânforas de barro, uma convivência rara entre o método mais antigo e mais moderno de vinificação sob o mesmo teto.

Portalegre manteve, ainda na década de 1960, centenas de pequenas adegas a produzir vinho em talhas de barro do século XIX para venda e consumo próprio.

Antes de existir cooperativa organizada — fundada oficialmente em 1954 —, era comum fazerem-se pequenas romarias de bicicleta até à Serra de São Mamede só para provar o vinho novo de produtores dispersos pela serra, um ritual popular que antecedeu em décadas qualquer conceito de enoturismo.

E há um marco que pertence a toda a região, não a uma única sub-região: em 1895, ergueu-se em Viana do Alentejo a primeira Adega Social de Portugal, pelas mãos de António Isidoro de Sousa — pioneiro do movimento cooperativista no país. O modelo que hoje sustenta boa parte da produção alentejana, das cooperativas de Borba a Vidigueira, nasceu ali, um ano antes do final do século XIX.

Por fim, uma lenda que atravessa cinco séculos e ainda hoje enche garrafas em Évora: a do Pêra-Manca. O nome nasceu quando frades donos de vinhas cultivavam um terreno cheio de pedras soltas que “mancavam” ao pisar.

Alentejo Evora

O vinho que ali nascia era tão afamado que, segundo a tradição oral, Pedro Álvares Cabral levou pipas dele na viagem que chegou ao Brasil em 1500, partilhando-o com os povos indígenas — episódio que ecoa na carta de Pero Vaz de Caminha.

O nome desapareceu por séculos e só foi resgatado em 1990 pela Fundação Eugénio de Almeida, que hoje só produz Pêra-Manca nos anos que a equipa de enologia considera excecionais.

E o preço reflete essa exclusividade. A edição 2018 do Pêra-Manca Tinto foi lançada a 350 euros a garrafa — mais 75 euros do que a edição anterior —, e mesmo assim só pode ser comprada por quem visita a Adega Cartuxa, faz a prova completa e conhece a história da Fundação em pessoa: uma garrafa por visitante, num total de apenas 3.000 garrafas destinadas ao mercado português.

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O vinho estagia 18 meses em tonéis de carvalho francês e mais quatro anos em garrafa antes de ser lançado, e não sai um único ano — em média, produz-se apenas cinco safras por década.

Grande parte da produção da Cartuxa envelhece dentro do Convento de Santa Maria Scala Coeli, mosteiro do século XVI onde viveram monges cartuxos em clausura desde 1598, e cujas paredes grossas e teto em arco mantêm naturalmente a temperatura ideal ao longo do ano.

O Pêra-Manca não é o único nome de peso do Alentejo. A própria Cartuxa produz também o Scala Coeli, referência direta ao mosteiro que dá nome à marca, e continua a explorar mais de 3.000 hectares de vinha na Serra de Mendro.

Fora da Fundação Eugénio de Almeida, a Herdade do Mouchão — uma das propriedades históricas mais respeitadas da região, com métodos de vinificação praticamente inalterados há gerações — e a Herdade do Rocim, com as suas gamas de reserva, também figuram regularmente entre os tintos alentejanos mais cobiçados e mais caros de Portugal, ainda que nenhum se aproxime do estatuto quase mítico do Pêra-Manca.