Guarda Wine Fest 2026: ambiente, vinhos e muito mais

Boas Vinhos em Prova no Guarda Wine Fest 2026

Já foi a terceira vez que estivemos no Guarda Wine Fest, e a verdade é que continuamos rendidos à cidade da Guarda em si — ruas limpas e cuidadas, uma vista magnífica sobre a região lá do alto, e claro, o imponente castelo que domina o centro histórico.

Não é por acaso que a Guarda é a cidade mais alta de Portugal, fundada em 1199 pelo rei D. Sancho I para defender o território recém-conquistado — e essa posição elevada, hoje, é sobretudo um privilégio para quem visita: o ar é fresco mesmo em pleno verão, e os miradouros pela cidade oferecem panoramas que valem a pena por si só.

Castelo da Guarda Portugal

Mas o que nos traz de volta, ano após ano, é mesmo o Guarda Wine Fest — a festa do vinho onde se pode provar excelentes vinhos portugueses, e não só da Beira Interior.

O festival decorre na Alameda de Santo André, junto ao parque e à fonte, e este ano juntou-se ao Guarda In Jazz, com concertos nas três noites do evento.

Uma bela tradição: a região do Tejo convidada

Uma das coisas que mais apreciamos neste festival é a tradição de convidar, todos os anos, uma região vinícola diferente para se juntar às três denominações de origem que já se cruzam naturalmente no distrito da Guarda — Beira Interior, Douro e Dão.

guarda wine fest 2026 vinhos do tejo 1

Já vimos o Trás-os-Montes ser a região convidada numa edição anterior; este ano foi a vez da região do Tejo trazer os seus vinhos e os seus estilos até à Guarda, alargando ainda mais o leque de castas e sabores disponíveis para prova.

Conversas sobre o Vinho

Para além dos próprios vinhos, vale mesmo a pena reservar tempo para as masterclasses e conversas com enólogos, num espaço dedicado só para isso e com o nome sugestivo de “Conversas sobre o Vinho”.

A sessão começou com um desafio lançado aos participantes por Manuel Moreira, sommelier e crítico de vinhos: descobrir quais os vinhos que melhor interagem com o Queijo Serra da Estrela DOP.

guarda wine fest 2026 conversas sobre vinho

Para a prova foram selecionados diferentes estilos de vinho — um espumante, dois brancos com perfis distintos, um tinto e um Vinho do Porto — permitindo comparar como cada um deles altera a perceção dos sabores e das texturas do queijo.

Manuel Moreira explicou que, tradicionalmente, o caderno de especificações privilegia o vinho tinto, mas a experiência tem mostrado que os vinhos brancos podem revelar uma ligação particularmente interessante com o queijo amanteigado.

Em vez de apresentar respostas definitivas, convidou os participantes a experimentar e a tirar as suas próprias conclusões.

guarda wine fest 2026 conversas sobre vinho enolog

“Todos os resultados são válidos”, afirmou Manuel Moreira, sublinhando que, na gastronomia, mais importante do que encontrar uma resposta certa ou errada é saber justificar as escolhas.

O essencial é perceber que componentes existem no vinho e nos alimentos e de que forma interagem entre si.

O sommelier aproveitou ainda para explicar que prefere falar em “interação” entre vinho e comida, em vez da habitual expressão “harmonização”. Na sua opinião, este conceito é mais rigoroso, porque admite que nem todas as combinações têm de ser perfeitamente equilibradas para serem interessantes.

O importante é compreender como os aromas, a acidez, os taninos, a gordura ou a textura influenciam a experiência de prova.

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A conversa terminou com uma explicação sobre uma das maiores particularidades do Queijo Serra da Estrela DOP: ser produzido com leite cru.

Segundo orador, este é também um dos maiores desafios para as queijeiras, já que a alimentação das ovelhas varia ao longo do ano e influencia diretamente o leite e, consequentemente, o queijo.

Um queijo produzido em dezembro nunca será exatamente igual a outro produzido em março ou maio. É precisamente essa variabilidade natural que faz parte da identidade do produto e constitui uma das características que tornam o Queijo Serra da Estrela DOP único.

Como explicou o especialista, só cerca de 30 dias após a produção é possível avaliar plenamente o resultado final de cada queijo, tornando cada lote diferente do anterior.

Gastronomia para todos os gostos

Depois de algumas provas de vinho, é difícil resistir aos aromas que chegam da zona da restauração. A verdade é que o Guarda Wine Fest é também um excelente lugar para descobrir a gastronomia da Beira Interior. Há petiscos para todos os gostos, enchidos de montanha, queijos regionais, pão tradicional, pratos quentes e doces, numa oferta que convida a fazer uma pausa entre provas.

Os showcookings acrescentam outra dimensão ao evento. É interessante ver chefs e produtores a preparar receitas ao vivo, explicando como pequenos detalhes podem fazer a diferença e sugerindo combinações entre os pratos e os vinhos da região. Mesmo quem não costuma cozinhar acaba por ficar alguns minutos a assistir e, muitas vezes, sai com vontade de experimentar as receitas em casa.

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Um dos aspetos mais agradáveis é precisamente essa mistura entre vinho e comida. Em vez de serem experiências separadas, tudo acontece de forma natural: prova-se um vinho, conversa-se com um produtor, segue-se um petisco ou um prato típico e, pouco depois, descobre-se outra harmonização.

O detalhe que só vimos aqui

Há ainda uma inovação que, até hoje, só encontrámos neste evento em particular: a zona dos stands é refrescada com sistemas de nebulização de água.

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Como o festival decorre num parque arborizado, já não faz assim tanto calor, mas com esta nebulização o conforto sobe visivelmente — dá vontade de ficar mais tempo a conversar com os produtores.

A nossa descoberta deste ano

Um dos grandes prazeres destes eventos de vinho é sempre a possibilidade de descobrir algo que ainda não se tinha provado. Desta vez, a nossa descoberta foram os vinhos Carvalhão Torto, com 10 anos de estágio, do produtor Amaral — vinhos verdadeiramente notáveis.

guarda wine fest 2026 carvalho torto vinho

E esta descoberta confirma, mais uma vez, uma impressão que já tínhamos: entre os produtores portugueses, sobretudo os de pequena dimensão, a qualidade dos vinhos é quase sempre muito elevada.

Sobre a Beira Interior, a região vinícola mais alta de Portugal

Já agora, vale a pena falar um pouco sobre a região anfitriã do festival. A Beira Interior é a região vitivinícola mais alta de Portugal, rodeada pelas serras da Estrela, Marofa e Malcata, com vinhas plantadas entre os 350 e os 750 metros de altitude.

guarda wine fest 2026 perfeito

É esta altitude — combinada com solos predominantemente graníticos e, nalgumas zonas, xistosos — que dá aos vinhos da região o seu carácter tão particular: grande amplitude térmica entre o dia e a noite, maturação lenta das uvas e uma frescura e acidez que se traduzem em vinhos elegantes e com bom potencial de guarda.

A região divide-se em três sub-regiões — Pinhel, Castelo Rodrigo e Cova da Beira — cada uma com o seu próprio perfil de solo e clima.

As castas brancas mais características são a Síria e a Fonte Cal, além de Arinto, Malvasia Fina e Rabo de Ovelha; nos tintos destacam-se a Rufete, o Marufo, o Bastardo, a Tinta Roriz e a Touriga Nacional.

guarda wine fest 2026 foto vinho

Há ainda um património notável de vinhas muito velhas, algumas com mais de 80 anos, e vestígios romanos de lagares talhados diretamente na rocha granítica, prova de que por aqui se faz vinho há muitos séculos.

Entre a história da cidade, a paisagem serrana e a qualidade cada vez maior dos seus vinhos, a Guarda e a Beira Interior continuam a mostrar por que valem tanto uma visita — e o Guarda Wine Fest é, sem dúvida, uma das melhores portas de entrada para as conhecer.