Já foi a terceira vez que estivemos no Guarda Wine Fest, e a verdade é que continuamos rendidos à cidade da Guarda em si — ruas limpas e cuidadas, uma vista magnífica sobre a região lá do alto, e claro, o imponente castelo que domina o centro histórico.
Não é por acaso que a Guarda é a cidade mais alta de Portugal, fundada em 1199 pelo rei D. Sancho I para defender o território recém-conquistado — e essa posição elevada, hoje, é sobretudo um privilégio para quem visita: o ar é fresco mesmo em pleno verão, e os miradouros pela cidade oferecem panoramas que valem a pena por si só.
Mas o que nos traz de volta, ano após ano, é mesmo o Guarda Wine Fest — a festa do vinho onde se pode provar excelentes vinhos portugueses, e não só da Beira Interior.
O festival decorre na Alameda de Santo André, junto ao parque e à fonte, e este ano juntou-se ao Guarda In Jazz, com concertos nas três noites do evento.
Uma bela tradição: a região do Tejo convidada
Uma das coisas que mais apreciamos neste festival é a tradição de convidar, todos os anos, uma região vinícola diferente para se juntar às três denominações de origem que já se cruzam naturalmente no distrito da Guarda — Beira Interior, Douro e Dão.
Já vimos o Trás-os-Montes ser a região convidada numa edição anterior; este ano foi a vez da região do Tejo trazer os seus vinhos e os seus estilos até à Guarda, alargando ainda mais o leque de castas e sabores disponíveis para prova.
Conversas sobre o Vinho
Para além dos próprios vinhos, vale mesmo a pena reservar tempo para as masterclasses e conversas com enólogos, num espaço dedicado só para isso e com o nome sugestivo de “Conversas sobre o Vinho”.
A sessão começou com um desafio lançado aos participantes por Manuel Moreira, sommelier e crítico de vinhos: descobrir quais os vinhos que melhor interagem com o Queijo Serra da Estrela DOP.
Para a prova foram selecionados diferentes estilos de vinho — um espumante, dois brancos com perfis distintos, um tinto e um Vinho do Porto — permitindo comparar como cada um deles altera a perceção dos sabores e das texturas do queijo.
Manuel Moreira explicou que, tradicionalmente, o caderno de especificações privilegia o vinho tinto, mas a experiência tem mostrado que os vinhos brancos podem revelar uma ligação particularmente interessante com o queijo amanteigado.
Em vez de apresentar respostas definitivas, convidou os participantes a experimentar e a tirar as suas próprias conclusões.
“Todos os resultados são válidos”, afirmou Manuel Moreira, sublinhando que, na gastronomia, mais importante do que encontrar uma resposta certa ou errada é saber justificar as escolhas.
O essencial é perceber que componentes existem no vinho e nos alimentos e de que forma interagem entre si.
O sommelier aproveitou ainda para explicar que prefere falar em “interação” entre vinho e comida, em vez da habitual expressão “harmonização”. Na sua opinião, este conceito é mais rigoroso, porque admite que nem todas as combinações têm de ser perfeitamente equilibradas para serem interessantes.
O importante é compreender como os aromas, a acidez, os taninos, a gordura ou a textura influenciam a experiência de prova.
A conversa terminou com uma explicação sobre uma das maiores particularidades do Queijo Serra da Estrela DOP: ser produzido com leite cru.
Segundo orador, este é também um dos maiores desafios para as queijeiras, já que a alimentação das ovelhas varia ao longo do ano e influencia diretamente o leite e, consequentemente, o queijo.
Um queijo produzido em dezembro nunca será exatamente igual a outro produzido em março ou maio. É precisamente essa variabilidade natural que faz parte da identidade do produto e constitui uma das características que tornam o Queijo Serra da Estrela DOP único.
Como explicou o especialista, só cerca de 30 dias após a produção é possível avaliar plenamente o resultado final de cada queijo, tornando cada lote diferente do anterior.
Gastronomia para todos os gostos
Depois de algumas provas de vinho, é difícil resistir aos aromas que chegam da zona da restauração. A verdade é que o Guarda Wine Fest é também um excelente lugar para descobrir a gastronomia da Beira Interior. Há petiscos para todos os gostos, enchidos de montanha, queijos regionais, pão tradicional, pratos quentes e doces, numa oferta que convida a fazer uma pausa entre provas.
Os showcookings acrescentam outra dimensão ao evento. É interessante ver chefs e produtores a preparar receitas ao vivo, explicando como pequenos detalhes podem fazer a diferença e sugerindo combinações entre os pratos e os vinhos da região. Mesmo quem não costuma cozinhar acaba por ficar alguns minutos a assistir e, muitas vezes, sai com vontade de experimentar as receitas em casa.
Um dos aspetos mais agradáveis é precisamente essa mistura entre vinho e comida. Em vez de serem experiências separadas, tudo acontece de forma natural: prova-se um vinho, conversa-se com um produtor, segue-se um petisco ou um prato típico e, pouco depois, descobre-se outra harmonização.
O detalhe que só vimos aqui
Há ainda uma inovação que, até hoje, só encontrámos neste evento em particular: a zona dos stands é refrescada com sistemas de nebulização de água.
Como o festival decorre num parque arborizado, já não faz assim tanto calor, mas com esta nebulização o conforto sobe visivelmente — dá vontade de ficar mais tempo a conversar com os produtores.
A nossa descoberta deste ano
Um dos grandes prazeres destes eventos de vinho é sempre a possibilidade de descobrir algo que ainda não se tinha provado. Desta vez, a nossa descoberta foram os vinhos Carvalhão Torto, com 10 anos de estágio, do produtor Amaral — vinhos verdadeiramente notáveis.
E esta descoberta confirma, mais uma vez, uma impressão que já tínhamos: entre os produtores portugueses, sobretudo os de pequena dimensão, a qualidade dos vinhos é quase sempre muito elevada.
Sobre a Beira Interior, a região vinícola mais alta de Portugal
Já agora, vale a pena falar um pouco sobre a região anfitriã do festival. A Beira Interior é a região vitivinícola mais alta de Portugal, rodeada pelas serras da Estrela, Marofa e Malcata, com vinhas plantadas entre os 350 e os 750 metros de altitude.
É esta altitude — combinada com solos predominantemente graníticos e, nalgumas zonas, xistosos — que dá aos vinhos da região o seu carácter tão particular: grande amplitude térmica entre o dia e a noite, maturação lenta das uvas e uma frescura e acidez que se traduzem em vinhos elegantes e com bom potencial de guarda.
A região divide-se em três sub-regiões — Pinhel, Castelo Rodrigo e Cova da Beira — cada uma com o seu próprio perfil de solo e clima.
As castas brancas mais características são a Síria e a Fonte Cal, além de Arinto, Malvasia Fina e Rabo de Ovelha; nos tintos destacam-se a Rufete, o Marufo, o Bastardo, a Tinta Roriz e a Touriga Nacional.
Há ainda um património notável de vinhas muito velhas, algumas com mais de 80 anos, e vestígios romanos de lagares talhados diretamente na rocha granítica, prova de que por aqui se faz vinho há muitos séculos.
Entre a história da cidade, a paisagem serrana e a qualidade cada vez maior dos seus vinhos, a Guarda e a Beira Interior continuam a mostrar por que valem tanto uma visita — e o Guarda Wine Fest é, sem dúvida, uma das melhores portas de entrada para as conhecer.
Fotos: Guarda Wine Fest 2026
Momentos da 5.ª edição do Guarda Wine Fest, 10-12 julho na Alameda de Santo André, com produtores da Beira Interior, Douro e Dão.
Fotos: Guarda Wine Fest 2026
Momentos da 5.ª edição do Guarda Wine Fest, 10-12 julho na Alameda de Santo André, com produtores da Beira Interior, Douro e Dão.
Fotos: Vinhos em Prova no Guarda Wine Fest 2026
Garrafas de produtores da Beira Interior, Douro e Dão em prova no Guarda Wine Fest 2026
Fotos: Vinhos em Prova no Guarda Wine Fest 2026
Garrafas de produtores da Beira Interior, Douro e Dão em prova no Guarda Wine Fest 2026









