Produção mundial de vinho cai em 2025, Portugal resiste nas exportações

Exportacao vinho OIV

A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) divulgou os dados mais recentes sobre o estado do setor vitivinícola mundial, confirmando uma tendência de contração na produção global.

Em contraciclo com este cenário, os dados do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), apresentados no Fórum Anual dos Vinhos de Portugal 2025, mostram que as exportações portuguesas atingiram um valor recorde em 2024.

Produção mundial de vinho atinge o nível mais baixo em 60 anos

A área de vinha a nível mundial tem vindo a reduzir-se de forma consecutiva nos últimos quatro anos. Em 2024, registou-se uma contração de 0,6%, fixando a superfície total em 7,1 milhões de hectares.

Apesar de o ritmo de redução ter abrandado face aos anos anteriores, a tendência mantém-se, impulsionada sobretudo pelo arranque de vinhas nas principais regiões vitícolas, ainda que algumas zonas mostrem sinais de expansão.

No que respeita à produção, 2024 fica marcado como o ano mais fraco em seis décadas: estima-se um volume de 226 milhões de hectolitros a nível global, uma quebra de 5% face a 2023. As condições climáticas extremas e imprevisíveis, sentidas tanto no hemisfério norte como no hemisfério sul, foram determinantes para este resultado.

O consumo mundial também recuou. Em 2024, estima-se um total de 214 milhões de hectolitros, menos 3,3% do que no ano anterior — o nível mais baixo desde 1961.

Esta descida resulta de uma combinação de fatores económicos e geopolíticos, com destaque para a inflação, a incerteza nos mercados e mudanças de comportamento dos consumidores nos mercados mais maduros. Ainda assim, o vinho continua a ser consumido em 195 países, um número que confirma o seu alcance global.

As exportações mundiais mantiveram-se praticamente estáveis em volume, com 99,8 milhões de hectolitros transacionados, enquanto o valor recuou ligeiramente 0,3%, totalizando 36 mil milhões de euros. O preço médio das exportações situou-se em 3,60 euros por litro, quase 30% acima da média pré-pandemia.

Previsões para 2025: ligeira recuperação na produção

Para 2025, as primeiras estimativas da OIV apontam para uma produção entre 228 e 235 milhões de hectolitros, com um valor médio previsto de 232 milhões de hectolitros — um aumento de cerca de 3% face à colheita historicamente baixa de 2024, mas ainda 7% abaixo da média dos últimos cinco anos.

Itália deverá recuperar a liderança como maior produtor mundial em 2025, com 47,3 milhões de hectolitros, seguida de França, com 35,9 milhões, e Espanha, com 29,4 milhões. Os Estados Unidos surgem em quarto lugar, enquanto a Austrália regressa à quinta posição entre os maiores produtores mundiais. A Argentina ocupa o sexto lugar a nível global, mantendo-se como o maior produtor da América do Sul.

Portugal contraria a tendência: exportações atingem 964 milhões de euros em 2024

Enquanto o panorama mundial aponta para retração na produção e no consumo, os dados nacionais do IVV revelam uma trajetória oposta para as exportações portuguesas. Em 2024, Portugal exportou vinho no valor de 964 milhões de euros, correspondentes a 3,4 milhões de hectolitros — um crescimento de 4,3% em valor e 5,6% em volume face a 2023, e o valor mais elevado já registado na última década.

Esta evolução posiciona Portugal como o 7º maior exportador mundial em volume e o 9º em valor, num mercado global dominado por Espanha, Itália e França em volume, e por França, Itália e Espanha em valor.

Comparando com o desempenho médio mundial, onde o valor das exportações recuou 0,3% em 2024, o crescimento português de 4,3% destaca-se claramente da tendência internacional.

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A evolução da última década confirma esta solidez: o valor das exportações nacionais passou de 614 milhões de euros em 2010 para os atuais 964 milhões de euros, com o volume a subir de 2,67 milhões de hectolitros para 3,37 milhões de hectolitros no mesmo período.

Os cinco maiores mercados de destino — França, Brasil, EUA, Reino Unido e Países Baixos — representam 44,1% do valor total exportado e 36,1% do volume.

Nos primeiros nove meses de 2025, face ao mesmo período de 2024, as exportações portuguesas registaram um aumento de 3% em volume, mas sem variação em valor, traduzindo-se numa descida do preço médio de 2,9% (de 2,76€/l para 2,68€/l).

Ainda assim, o desempenho nos EUA — maior importador mundial de vinho — destacou-se pela positiva, com um crescimento de 12,1% em valor e 5,5% em volume no mesmo período, impulsionado sobretudo pelo aumento do peso dos vinhos tranquilos com DO/IG.

Comércio internacional de vinho: o papel dos hubs de reexportação

A crescente complexidade do comércio internacional de vinho tem reforçado a importância da reexportação como motor de acesso a mercados e de criação de valor. Segundo os dados da OIV, o comércio mundial de vinho representa atualmente 47% do consumo global, e entre 2018 e 2023 as reexportações corresponderam a cerca de 13% do total das exportações, o equivalente a 14 milhões de hectolitros, num valor estimado de 4,6 mil milhões de euros.

Entre os principais centros de reexportação destacam-se polos tradicionais europeus, como o Reino Unido — que é também o 4º maior mercado de destino do vinho português — e portas de entrada na Ásia, como Singapura. Surgem ainda atores regionais emergentes, como o Canadá e Angola, sendo que este último já figura entre os cinco principais mercados de exportação portuguesa nos primeiros nove meses de 2025.

Num contexto de produção e consumo mundiais em retração, o desempenho das exportações portuguesas reforça a posição competitiva do país nos mercados internacionais, num momento em que compreender os fluxos comerciais se torna essencial para antecipar tendências e fortalecer a resiliência do setor.