Introdução à Região da Península de Setúbal

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A Península de Setúbal, a sul de Lisboa, construiu a sua fama em torno de um vinho generoso e de uma lenda marítima pouco comum. Chama-se Torna-Viagem.

E é, talvez, a história mais estranha de todo o vinho português: um vinho que ficava melhor depois de atravessar o oceano duas vezes.

História do Vinho na Península de Setúbal: de Fenícios a José Maria da Fonseca

A vinha aqui é anterior à própria formação de Portugal. Fenícios, gregos e romanos deixaram marca. Depois vieram os árabes. No século XII, com a Reconquista e a chegada da Ordem de Santiago, a região repovoou-se.

O vinho voltou a ser um dos principais produtos exportados, impulsionado por técnicas trazidas pelas ordens religiosas.

O capítulo mais importante da história recente começou em 1834. Nesse ano, José Maria da Fonseca fundou a empresa que ainda hoje leva o seu nome — a mais antiga produtora de vinho de mesa de Portugal. Em 1850, criou o Periquita, batizado com o nome da propriedade onde nasceu, a Cova da Periquita.

O vinho começou a ser exportado em 1881. Em 1888, ganhou o primeiro prémio internacional, na Exposição de Berlim.

Foi também no século XIX que a região bateu um recorde mundial pouco conhecido. José Maria dos Santos, na Herdade de Rio Frio, chegou a gerir uma vinha contínua de 4.000 hectares, com mais de 12 milhões de videiras.

Produzia 30 mil pipas de vinho por ano. Tornou-se conhecido, na época, como dono da maior vinha contínua do mundo.

Clima e Solo da Península de Setúbal: Duas Paisagens, Dois Vinhos

A região divide-se em duas geografias completamente distintas. A sul e sudoeste, a Serra da Arrábida traz relevo, solos argilo-calcários e altitudes até 500 metros.

Mapa Setubal

A norte e a leste, a paisagem é plana, com solos arenosos que se estendem junto ao rio Sado. O clima é misto: influência mediterrânica e subtropical, moderada pela proximidade do mar e pelas bacias do Tejo e do Sado.

Verões quentes e secos, invernos amenos mas chuvosos — condições que, combinadas com a diversidade de solos, explicam por que a mesma região produz, ao mesmo tempo, um vinho fortificado de sobremesa e tintos estruturados de guarda.

As Duas Denominações de Origem: Setúbal e Palmela

Ao contrário de regiões com seis, oito ou nove sub-regiões, a Península de Setúbal organiza-se de forma mais direta. A Denominação de Origem Setúbal é reservada exclusivamente aos vinhos generosos — o Moscatel de Setúbal e o raríssimo Moscatel Roxo.

A Denominação Palmela cobre a mesma área geográfica, mas destina-se aos vinhos tranquilos, tintos, brancos e rosados, além de frisantes e espumantes.

Os tintos de Palmela têm uma regra curiosa: precisam de conter pelo menos 67% de Castelão no lote, a casta que localmente ainda é chamada pelo nome antigo, Periquita.

Acima destas duas denominações, existe ainda a Indicação Geográfica Península de Setúbal, que cobre todo o distrito e permite maior liberdade de castas e estilos — o nível de entrada de uma pirâmide de qualidade bem definida.

Área de Vinha e Produtores em Números

Segundo a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, criada em 1991, a área demarcada da região soma cerca de 9.210 hectares de vinha. Apenas uma fração, cerca de 2.075 hectares, está afeta à produção com Denominação de Origem — o resto segue como vinho regional.

A casta Castelão domina a paisagem: ocupa 9.159 hectares em todo o país, dos quais 40% estão dentro da Península de Setúbal, tornando a região a maior base nacional desta casta.

Cinco grandes produtores sustentam boa parte da produção certificada: José Maria da Fonseca, Bacalhôa, Ermelinda Freitas, Adega de Pegões e Adega de Palmela.

Ao lado deles, operam quase três dezenas de produtores mais pequenos, muitos concentrados na produção de Moscatel.

Tipos de Vinho da Península de Setúbal

O Moscatel de Setúbal é a assinatura da região — um vinho fortificado, envelhecido em madeira, com aromas de damasco quando jovem e notas de passas, caramelo e frutos secos à medida que envelhece. Já escrevemos sobre ele em detalhe no nosso artigo dedicado ao Moscatel de Setúbal.

moscatel de setubal, garrafas

Ao lado dele, sobrevive uma raridade quase esquecida: o Moscatel Roxo. Em determinado momento do século XX, chegou a restar apenas cerca de cinco metros quadrados de vinha desta casta em todo o país — um dado que, por si só, explica por que continua a ser um dos vinhos mais raros de Portugal.

Os tintos de Castelão, por sua vez, mostram-se encorpados e intensos, com boa acidez natural e taninos maduros. Os mais jovens trazem aromas de cereja e groselha; os mais velhos ganham notas de bolota e frutos secos — uma evolução que raramente se descreve nesses termos noutras regiões do país.

Festas do Vinho na Península de Setúbal

A região vive um calendário de festas que atravessa o ano inteiro, mas Palmela concentra a maior parte dele. A Festa das Vindimas de Palmela acontece todos os anos no final do verão, com direito a pisa da uva ao vivo — recuperando, em ambiente de festa popular, o mesmo gesto que gerações de produtores fizeram durante séculos antes de existir qualquer máquina de vinificação.

Em outubro, é a vez do Festival do Moscatel, dedicado exclusivamente ao vinho mais emblemático da região — o único festival do género em Portugal a celebrar uma única casta generosa durante um dia inteiro.

Palmela cidade

Ao longo do ano, a região soma ainda outras celebrações mais informais, como a Festa Branca de Setúbal, dedicada aos vinhos brancos do verão, e o I Love Purple — Setúbal Wine Party, uma festa temática em torno dos vinhos rosé e tintos jovens da região, já com várias edições realizadas.

E para quem prefere combinar vinho com música ao vivo, o WINELANDS Wine & Music Festival, em Palmela, junta prova de vinhos regionais a concertos ao ar livre — um formato que tem atraído um público mais jovem para dentro das adegas da região.

Tradições e Curiosidades do Vinho na Península de Setúbal

A tradição do Torna-Viagem é, sem dúvida, a história mais extraordinária da região. No século XIX, José Maria da Fonseca enviava barris de Moscatel para o Brasil, à consignação. Nem sempre havia comprador para tudo.

Os barris que sobravam faziam a viagem de regresso, atravessando o Equador duas vezes, sujeitos ao calor, ao balanço do mar e às oscilações de temperatura dos porões dos navios.

Em vez de estragarem, esses vinhos voltavam mais concentrados, mais suaves, mais complexos — um efeito que ninguém tinha planeado, mas que os produtores rapidamente aprenderam a valorizar.

A tradição não ficou apenas nos livros de história. Desde o ano 2000, a José Maria da Fonseca voltou a enviar garrafas de Moscatel a bordo do Navio-Escola Sagres, repetindo a antiga viagem até ao Brasil e de volta a Portugal — uma forma deliberada de recriar, com instrumentos modernos, um acidente que se tornou tradição.

Para quem preferir conhecer a região a pé ou de carro, mantemos também um roteiro completo pelas rotas de vinho da Península de Setúbal, com as principais quintas e adegas a visitar.