O acordo entre a União Europeia e o Mercosul entra agora numa fase que interessa menos à diplomacia e mais às empresas. Para o vinho, a leitura é simples: menos barreiras à entrada, mais margem para trabalhar preço e posicionamento.
O Mercosul é um bloco económico da América do Sul que reúne países como Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, promovendo o comércio livre e a integração económica entre os seus membros.
Acordo UE–Mercosul impulsiona exportações de vinho europe
Os números ajudam a perceber a escala do problema que existia. Taxas até 35% na Argentina e perto de 18% no Brasil, Paraguai e Uruguai retiravam competitividade a qualquer produtor europeu, mesmo aos que já tinham presença consolidada.
Em 2024, esse custo somou mais de 43 milhões de euros. Dinheiro que não se recupera com discurso de marca.
Marzia Varvaglione, presidente do CEEV, à frente do comité europeu que representa o sector, fala num ponto de viragem. Não é retórica. Num cenário de instabilidade comercial — Estados Unidos imprevisíveis, Ásia mais exigente — diversificar mercados deixou de ser prudência para passar a necessidade operacional.
Mercado do Mercosul abre novas oportunidades ao vinho europeu
O Mercosul continua a ser um destino secundário nas contas europeias: 238 milhões de euros em exportações no último ano, pouco mais de 1% do total. Mas a evolução importa. Em dez anos, duplicou. E, sobretudo, há massa crítica. São cerca de 270 milhões de consumidores, com o Brasil a concentrar a maior fatia e a ditar tendências de consumo.
Há outro ponto menos visível, mas decisivo. O acordo não trata apenas de tarifas. A harmonização de regras — certificação, práticas enológicas, rotulagem — pode reduzir tempos e custos que raramente entram nas contas públicas.
Quem já tentou colocar vinho no Brasil sabe o que isto significa na prática.
E depois há a questão das Indicações Geográficas.
A proteção de 145 denominações europeias garante que nomes como Douro, Vinho Verde ou Alentejo deixam de circular sem controlo em mercados onde a cópia sempre encontrou espaço. Não resolve tudo, mas cria enquadramento.
O Dr. Ignacio Sánchez Recarte, que é secretário-geral do CEEV, resume a ambição: competir em condições equivalentes. Falta ver como isso se traduz no terreno. Porque o acesso melhora, mas o mercado não espera. Chile e Argentina continuam a jogar em casa, com estruturas montadas e preços afinados.
Aplicação provisória decorre enquanto continua processo de ratificação
A aplicação é provisória e o processo político ainda corre em paralelo, com o Tribunal de Justiça da União Europeia chamado a pronunciar-se. Bruxelas avança com cautela.
Do lado das empresas, o tempo é outro. Quem quiser ganhar espaço começa já.
